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BOTOX E FEMINISMO

Por Nathália Oliveira*

Desde que me lembro, tenho uma visão diferente da maioria das pessoas sobre envelhecer. Quando criança, eu tinha pressa para entrar na escola, fazer prova, depois para ser adolescente, depois para ser adulta… Hoje, aos 26 anos, me sinto confortável como nunca, e animada com o que está por vir.

Meu primeiro longa-metragem, escrito durante a pós-graduação, tem como protagonistas duas idosas, alguns dos melhores filmes que já vi, tem mulheres idosas como personagens principais. Em resumo: para mim, envelhecer tem sido uma experiência fantástica.

Claro, diria meu companheiro Max, aos 26 é fácil dizer que é lindo envelhecer, quero ver quando passar dos 30! 

Pode ser. Falta pouco e eu espero chegar lá e perceber que tenho razão.

O papo sobre envelhecimento surgiu semana passada em um grupo de amigas no Whatsapp. Algumas mulheres próximas de nós, com a mesma idade que eu, estão começando (ou mais do que “apenas começando”) a fazer aplicações de botox. O tema veio justamente no momento em que eu comecei a olhar mais de perto esse mundo da cirurgia plástica (que eu achei que estava em decadência, ledo engano).

O Brasil é o segundo no ranking mundial de cirurgias plásticas. Em 2016, último ano do censo realizado pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), quase 7% dos procedimentos foram realizados em pacientes com até 18 anos!

Não sei para vocês, mas esse número mexe comigo. Assim como o fato de que amigas da minha idade estejam aplicando botox no rosto. Também mexe comigo.

Há quem diga que aplicação da toxina botulínica é uma ação preventiva, e esse seria o argumento de muitas mulheres da minha idade. Mas, espera, do que estamos tentando nos prevenir mesmo? E por que mesmo? E, só para constar, eu não soube, até agora, do caso de um homem próximo, da minha idade, que esteja investindo seu tempo e seu dinheiro nisso.

Eu digo que esse número mexe comigo porque ele me coloca em um conflito. Não posso deixar de pensar que ao realizarmos esses procedimentos, de forma tão precoce e compulsória, estamos cedendo à pressão estética machista, ao mesmo tempo em que nos curvamos aos interesses do capitalismo, que nos faz acreditar que a única fonte de felicidade é a da juventude e, por isso, precisamos comprar cremes anti-idade (olha essa expressão, que loucura!), pagar por botox e cirurgias plásticas o quanto antes. Faz a gente achar que filtros de Instagram que mascarem as marcas de expressão nos nossos rostos e maquiagens caríssimas são artigos “must have”. 

Mas ao mesmo tempo que penso tudo isso, me lembro de que sou militante feminista, que a minha luta é para que as mulheres tenham autonomia sobre seus corpos, sejam suas senhoras soberanas e que quaisquer que sejam os seus desejos, devem ser respeitados.

Esse conflito ainda está sem previsão de resposta. Talvez esse texto seja a primeira trincheira a ser ultrapassada. Talvez ele seja uma boa forma de começar a fazer as perguntas certas. Ou talvez com a idade, com o poético e encantado envelhecer do qual eu tanto disfruto, venha o entendimento que minha carne jovem ainda não é capaz de alcançar.

Em tempo, recomendo a leitura deste texto, que também fala sobre envelhecimento e feminismo.

Nathália Oliveira vive de contar histórias e é a criadora deste projeto.

2019-11-30T19:56:01-03:00