O ABSURDO QUE NOS ESPREITA

Por Nathália Oliveira*

Acordar no Brasil de 2020 é ter a sensação diária de que um novo absurdo nos espera a cada manhã. Tão certo quanto a luz do sol, tão absurdo quanto o do dia anterior.

Acordar neste país da estupefação há tantos dias já começa a deixar marcas na gente.

Durante meus mais de dois meses de quarentena na Argentina, de março a maio, eu lia e ouvia notícias do meu país, e sofria com elas. Mas algo me dizia que essa tristeza não era a mesma que bate quando se está sob este céu tropical, idealizadamente azul, porém realmente acinzentado, como um concreto que nos esmaga. São as cinzas de nossos mortos. São as cinzas dos que são dispensáveis aos olhos do sistema, aos olhos do governo de Jair Bolsonaro.

Depois de assistir a Narciso em Férias e ouvir Caetano Veloso falar sobre sua prisão política e seu exílio, penso nos exilados da Ditadura. Sinto que há algo em comum na sensação que me habitou em terras argentinas. E na sensação que me habita agora. É uma oscilação que vai de me convencer de que os horrores do passado não podem se repetir, de que algo aprendemos e de que tem muita gente nessa frente de batalha, até ter a certeza absoluta de estar testemunhando o início de um período em que certezas não existem mais. Em que não há garantias.

No filme, Caetano diz que sentiu uma “euforia ao ver gente”, quando foi transferido depois de duas semanas na solitária. Não sei se essa euforia vai se manifestar em nós depois desta quarentena.

É que esses seis meses de quarentena são muito mais do que seis meses afastadas da socialização por conta de uma pandemia. É a metade de um ano em que estamos paradas observando frame a frame o desmonte da nossa República e o incêndio em nossas terras. Assistimos à perda de direitos, perda da esperança de que em um futuro próximo as lutas que travamos vão trazer resultados. A verdade é que nossas lutas por avanços foram reduzidas a uma luta para impedir retrocessos.

Acordar no Brasil de 2020, depois de ter pesadelos com o Brasil de 1968 relatado por Caetano, é sentir a frustração de não ter estado desperta o suficiente no Brasil de 2018. É sentir a fria certeza de que se eu fosse quem sou no Brasil de 1968, poderia passar pela prisão, pela tortura e pelo assassinato pelas mãos do Estado com a aprovação de muitos de meus familiares, amigos de escola e vizinhos. Com a absurda aprovação da maioria dos brasileiros, que absolvem a omissão de um governo que já causou mais de 130 mil mortes.

O absurdo estará sempre à espreita de um povo que não respeita seus mortos.

Nathália Oliveira vive de contar histórias e é a criadora deste projeto. @anath.oliveira